Imagine um borboletário suspenso sobre o Oceano Pacífico. As asas vibram em diferentes pontos e cada batida levanta um sopro quente que escala a atmosfera, de modo que, semanas depois, esses movimentos ecoam do outro lado do planeta. Diante da costa do Senegal, um cardume de sardinhas desaparece como se tivesse sido engolido pelo mar, enquanto no litoral do Amapá pescadores celebram uma safra recorde de camarões.
Esse é o poder invisível do El Niño, um maestro climático que rege não apenas seu próprio quintal (o Pacífico), mas orquestra efeitos a milhares de quilômetros de distância. Os efeitos dessa fase do fenômeno El Niño–Oscilação Sul (ENOS), que alterna com a La Niña, foram agora rastreados em detalhe no Atlântico por uma revisão científica publicada na revista Nature Reviews Earth & Environment. O estudo mapeou como as correntes atmosféricas desencadeadas pelo El Niño atravessam oceanos e, ao atingir o Atlântico, alteram ventos, chuvas, nutrientes e os ecossistemas marinhos.
Assinado por mais de 60 pesquisadores de 30 instituições de diferentes países, o estudo contou com a participação do professor Ronaldo Angelini, do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (CIVAM/UFRN). O financiamento principal veio do projeto TRIATLAS, desenvolvido no âmbito do programa Horizon2020 da União Europeia. Além disso, recebeu apoio de agências nacionais de fomento, como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) no Brasil, o Ministério da Ciência e Inovação da Espanha e a Fundação Alemã de Pesquisa (DFG), reforçando a dimensão internacional da pesquisa.
Detetives climáticos

Os cientistas atuaram como verdadeiros detetives climáticos, costurando décadas de dados de satélites, bóias oceânicas, modelos matemáticos e registros de pesca para enfrentar uma questão antiga: de que maneira um evento no Pacífico consegue alterar a pesca no Atlântico? A resposta está em duas rodovias atmosféricas. A primeira é a via tropical, que atua por meio da Circulação de Walker ou do aquecimento troposférico. Esse padrão de circulação equatorial no Pacífico faz o ar subir no oeste, quente e chuvoso, e descer no leste, mais frio e seco, formando os ventos alísios que sopram de leste para oeste. Durante um El Niño, essa esteira se desloca e reduz as chuvas sobre a Amazônia, enquanto aumenta as do Congo.
A segunda é a via extratropical, que funciona como um trem de ondas de pressão (chamadas teleconexões), viajando do Pacífico até o Atlântico Sul pelo padrão PSA rumo ao Atlântico Sul e pelo padrão PNA rumo ao Atlântico Norte Tropical. Esses trens invisíveis remodelam os ventos que sopram sobre o oceano e controlam um processo vital, a ressurgência. É quando águas profundas e frias, ricas em nutrientes, sobem à superfície para alimentar o plâncton e toda a cadeia pesqueira.

O estudo mostra, portanto, que a influência do El Niño não funciona como um simples interruptor, mas como um regulador cheio de nuances e contradições. Na foz do rio Amazonas, o fenômeno reduz a chuva e a chegada de água doce ao mar, o que faz a salinidade aumentar e, de forma inesperada, a transparência também. Com menos turvação na água do rio, a luz do Sol alcança camadas mais profundas e cria o ambiente ideal para o camarão marrom. Esse cenário favorece a migração pós-larval, aumenta as chances de sobrevivência e fortalece o recrutamento da espécie, resultando em maior captura no ano seguinte a um evento de El Niño. Ou seja, o que para alguns representa perda pode, para outros, transformar-se em oportunidade.
No Rio da Prata, o mesmo El Niño despeja água doce e nutrientes em excesso. A produtividade marinha dispara e espécies como merluza e linguado prosperam, enquanto a corvina, um peixe de fundo valioso, enfrenta dificuldades, já que mudanças nos ventos e correntes afastam suas larvas dos berçários essenciais. Na costa noroeste da África, no sistema de ressurgência de Mauritânia e Senegal, o El Niño enfraquece os ventos que sustentam o afloramento. A bomba de nutrientes se desliga, o plâncton desaparece e as sardinhas definham. Mas, ao contrário, no Golfo da Guiné os ventos podem se intensificar, a ressurgência ganha força e outras espécies de sardinela prosperam.
Variabilidades climáticas e ecossistêmicas
Apesar das inúmeras transformações que se acumulam no oceano e na atmosfera, é essencial destacar que os efeitos não se manifestam de maneira imediata nem homogênea, já que cada espécie reage de forma singular e os impactos podem levar até dois anos para se refletirem plenamente na pesca. Essa dinâmica ajuda a compreender por que o estudo insiste na ausência de respostas fáceis, uma vez que o aumento da variabilidade climática não produz consequências lineares ou previsíveis, mas sim efeitos modulados pelo território, estação, regimes climáticos e até pela composição dos estoques pesqueiros. O sistema funciona como um intrincado tabuleiro de xadrez atmosférico em que cada espécie é uma peça com movimentos próprios e imprevisíveis, e as regras desse jogo mudam com o tempo.

Um dos achados centrais do estudo é a chamada não estacionariedade, conceito que descreve como as relações entre o El Niño e o Atlântico não permanecem fixas, mas se fortalecem em alguns períodos e desaparecem em outros, variando conforme o tipo de El Niño, seja ele formado no Pacífico Leste ou Central, e também de acordo com oscilações de baixa frequência, como a Variabilidade Multidecadal do Atlântico e a Oscilação Decadal do Pacífico.
Embora já existissem pesquisas que apontavam conexões entre o El Niño e a pesca no Atlântico, a maioria se limitava a regiões ou espécies específicas. A novidade deste trabalho é a visão integrada, pois, pela primeira vez, os cientistas conseguiram mapear de forma abrangente como diferentes mecanismos atmosféricos e oceanográficos se articulam para produzir impactos variados, revelando um quadro dinâmico e interconectado das relações entre clima e pesca.
O impacto social dessa instabilidade é profundo, já que mais de 600 milhões de pessoas vivem no litoral do Atlântico tropical e sul, e muitas delas dependem diretamente do que o mar oferece a cada ano. Prever se a safra será de abundância ou de escassez torna-se um desafio colossal. O artigo alerta que a incerteza sobre a frequência e a intensidade futuras de eventos ENSO expõe essas populações a riscos elevados.

Os modelos atuais continuam enfrentando dificuldades para capturar toda a complexidade dessas interações, e suas projeções carregam incertezas, sobretudo ao simular a resposta das espécies a mudanças sutis no ambiente. Assim, apesar de o manejo ser local, dada a abrangência planetária dos fenômenos envolvidos, os cientistas defendem a necessidade de ampliar internacionalmente uma rede mais densa de observação do oceano que inclua bóias, satélites e medições de rios, capaz de alimentar modelos que representem a dança entrelaçada entre física, química e biologia marinha. Somente assim será possível transformar conhecimento em previsões úteis e em alertas precoces que cheguem às mãos de pescadores e gestores públicos a tempo de orientar decisões.
Fonte: Agecom/UFRN





































































