Meu coração sangra pra dentro, bate, apanha, revolve, debate, remói. Um coração conectado a tubos e incrustado no peito querendo escapar pela boca, querendo voar pelos céus, querendo se dividir em dois e ficar um pedaço em cada cidade, querendo suportar a manada de elefantes que o pisoteia, o elefante que se senta sobre as coronárias, indigestos elefantes.
Tenho vontade de golfar, golfinhos pelo esôfago fazendo malabarismo, e invento cenários e animais e imagens divertidas que possam minimamente me distrair, minimamente me confortar, como a mãe chacoalhando o brinquedo colorido e sonoro na frente do bebê para que pare de chorar. Eu choro. Eu sou o brinquedo que chacoalha. Eu sou a mãe e eu sou o bebê. Relaxo e deixo passar por mim a manada. Peito aberto, mais espaço, menos atrito. Essas emoções sempre voltam, então vamos aprender. Com que idade se para de sentir e que tal se a resposta for nunca? Sentir com um pouco mais de naturalidade, não me atordoar. Não me reduzir a um peito que dói.
Minha dipirona do coração é a palavra, a imaginação. O alongamento das bordas dos pensamentos para que deixem de ser rígidos e dolorosos e ganhem um pouco de movimento, maleabilidade. Se eu pudesse escolher um superpoder, fico em dúvida se seria o teletransporte ou a transmutação dos pensamentos e acho que a transmutação é ainda melhor. Transformar a água em vinho, não depender das circunstâncias, ser uma maga da experiência, escolher para onde ir, programar os sentidos.
O nó do coração já virou laço, porque cutuquei seu centro e refiz o arranjo das cordas. Não vou colocar o que sinto em volta do meu pescoço. Não vou colocar amor em forma de arma ao lado da minha têmpora. Sem tempo, irmã. Meu coração tem asas e minhas orelhas se abanam discretas em direção ao que querem ouvir. E ouvem o barulho do ar-condicionado e da digitação e o coração sente o pulso e o pulmão respira e está tudo em paz e os pés estão no chão e nunca houve segurança de fato desde que o chão virou uma ficção dos prédios e das aeronaves e mesmo o chão, a crosta terrestre, é uma casca de ovo e sua gema é de fogo, não podemos confiar, e giramos velozes no espaço e nem sabemos por que estamos tontos e dormimos mesmo assim.
Repouso no peito de quem amo como se nunca fosse preciso desgrudar, mas o dia seguinte chega e o dever nos chama. Chamado, chama e chamariz. E seguimos lentos e resignados para uma nova rotação e não nos cansamos disso, sempre em torno de nós e sempre em torno do Sol, orbitando e birutando em torno do Sol. Fogo no centro da Terra e fogo nos fazendo girar. Não é de se espantar que o centro do corpo humano também seja um caldeirão.
Imagem: Reprodução
Victória Rincon é uma talentosa escritora, jurista e poetisa que traz uma riqueza única de experiência e sensibilidade ao mundo das palavras. Com dois livros publicados na área jurídica e uma paixão ardente pela crônica e poesia, ela é uma figura multifacetada que deixa sua marca distintiva em tudo o que faz.

































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