Falar hoje cansa. Não porque falte assunto, mas porque qualquer tema virou armadilha. Antes mesmo de alguém concluir uma frase, surge a pergunta invisível: “isso é de direita ou de esquerda?”. Pouco importa o conteúdo. O que interessa é o enquadramento. O empobrecimento do debate público não começou quando a polarização se tornou visível, mas sim quando esta passou a ser obrigatória.
A partir daí, opinar deixou de ser troca de ideias e passou a significar declaração de lado ou risco de ferir sensibilidades alheias. Quem não se encaixa em nenhum rótulo virou suspeito, vulgarmente chamado de “isentão”. Nesse ambiente de vigilância permanente, muita gente desistiu de falar ou passou a pisar em ovos quando se arrisca a fazê-lo. Não por ausência de convicção, mas pelo receio de acabar, sem intenção alguma, numa situação desconfortável e de consequências imprevisíveis.
Com isso, o espaço de convivência coletiva, que deveria comportar conversas francas e honestas, converteu-se num grande teatro social de palavras medidas, no qual cada frase exige cautela, referências pedem justificativas prévias e símbolos adotados cobram um posicionamento que nem sempre existe ou sequer deveria existir.
Pessoas que não se reconhecem nem na direita, nem na esquerda, nem nesse centrão mercenário orientado exclusivamente pela própria conveniência passaram a evitar certos temas, imagens e até expressões. Não se trata de ignorância, mas de rejeição consciente ao jogo. Pensar tornou-se cansativo demais. Discordar passou a soar ofensivo. A nuance, antes virtude intelectual, virou indício de desvio moral.
Como alertava Zygmunt Bauman, quando a política abandona a ética para se organizar em torno de identidades fechadas, ela deixa de procurar soluções e passa a buscar pertencimento. O problema é que pertencimentos não dialogam; reagem. Defendem-se. Atacam. O resultado é uma sociedade barulhenta, porém superficial. Repleta de opiniões, mas pobre em escuta.
É nesse terreno empobrecido que símbolos são sequestrados, ideias acabam reduzidas a slogans e até figuras histórico-religiosas passam a ser tratadas, de forma leviana, como cabos eleitorais de candidatos e ideologias.
O sequestro dos símbolos e a expulsão silenciosa de quem não joga
Quando falar virou um risco, utilizar determinados símbolos transformou-se em provocação. Não porque tenham mudado de significado por acordo coletivo, mas porque foram apropriados à força. A camisa da seleção brasileira talvez seja o exemplo mais visível. O que antes remetia apenas a futebol, Copa do Mundo e memória afetiva passou a funcionar como marcador ideológico. Vestir amarelo deixou de ser trivial; virou afirmação presumida.
Não houve debate público sobre isso; apenas ocupação. Um grupo tomou para si elementos que nunca lhe pertenceram e passou a tratá-los como extensão da própria identidade política. O efeito foi imediato: quem não se reconhecia naquele campo começou a evitá-los. Não por vergonha do país, mas para não ser confundido com um discurso que não subscreve.
Processo semelhante atingiu termos como “patriotismo”, “liberdade”, “ordem” e até “democracia”. Palavras amplas, historicamente disputadas e semanticamente ricas foram comprimidas até perder densidade. Quando isso ocorre, o símbolo deixa de comunicar e passa a constranger. Não se trata de censura formal, mas de esvaziamento progressivo do espaço comum.
Quando Jesus vira palanque e a fé vira instrumento
Poucas distorções expõem tanto o empobrecimento do debate quanto a apropriação de Jesus e do cristianismo por projetos de poder. Um personagem histórico que jamais buscou cargos, governos ou hegemonia cultural foi convertido em ativo ideológico.
O Jesus dos Evangelhos confronta autoridades religiosas, desmonta o moralismo performático e recusa explicitamente a lógica do domínio político. A afirmação de que seu reino “não é deste mundo” (João 18:36) não funciona como metáfora etérea, mas como ruptura direta com qualquer tentativa de instrumentalização do sagrado.
Essa captura sempre encontrou resistência entre cristãos intelectualmente sérios. Caio Fábio sustenta, há décadas, que o cristianismo começa exatamente onde termina a vontade de poder. Sempre que a fé se associa ao Estado ou a ideologias, deixa de ser Boa Nova e passa a funcionar como mecanismo de controle.
Na mesma direção, Ed René Kivitz denuncia a idolatria política travestida de fé: quando a fidelidade religiosa passa a ser medida por alinhamento ideológico, o Evangelho deixa de ser caminho e se transforma em marcador tribal.
O teólogo anglicano Rowan Williams advertiu que capturar Deus para legitimar agendas políticas produz uma religião autoritária, incapaz de autocrítica. A fé só permanece saudável quando preserva a capacidade de dizer “não” ao poder, inclusive ao poder que afirma (ilegitimamente) agir em nome de Deus.
Nos Estados Unidos, Jim Wallis critica há décadas a chamada “fé domesticada”, aquela que troca o compromisso com os pobres e vulneráveis por guerras morais seletivas. No catolicismo, Papa Francisco foi igualmente claro ao afirmar que a Igreja perde sua alma quando se converte em capelania de interesses políticos. A mesma tradição inspirou Dom Hélder Câmara, que lembrava:
“Quando se pergunta por que os pobres não têm pão, chamam-nos de comunistas; quando se pergunta por que alguns acumulam tanto pão, chamam-nos de subversivos”.
O que aproxima essas vozes não é uma ideologia compartilhada, mas uma compreensão ética comum: a fé cristã não nasce para servir a projetos de poder e se desfigura quando é usada para esse fim.
A esquerda e sua memória seletiva
A esquerda brasileira construiu para si a imagem de reserva moral da República. O problema é que sua trajetória recente não sustenta essa pretensão. Não por narrativa adversária, mas por registros jurídicos e fatos amplamente documentados.
O Mensalão, julgado pelo Supremo Tribunal Federal em 2012, resultou na condenação de dirigentes centrais do PT por corrupção ativa, corrupção passiva e formação de quadrilha. Já o Petrolão, revelado a partir de 2014 no âmbito da Operação Lava Jato, expôs um esquema sistêmico de desvio de recursos da Petrobras envolvendo partidos como PT, PMDB (atual MDB) e PP, além de grandes empreiteiras e altos agentes públicos. Anulações posteriores de condenações ocorreram por vícios processuais, não por declarações de inocência.
Além disso, a esquerda institucional passou a naturalizar alianças que antes dizia combater. Governos liderados pelo PT sustentaram-se, por anos, em acordos com partidos do chamado Centrão — como PMDB (atual MDB), PP, PR e Republicanos — os mesmos que simbolizam a política de troca de favores que a esquerda prometia superar. A governabilidade foi garantida à custa de concessões, distribuição de cargos, controle de estatais e liberação de verbas, práticas que antes eram denunciadas como vícios históricos da política brasileira.
Essa convivência incluiu negociações baseadas em conveniência parlamentar, nas quais apoio no Congresso era trocado por ministérios, diretorias e emendas, além da manutenção de aliados envolvidos em escândalos enquanto permanecessem politicamente úteis. Os casos revelados no Mensalão e no Petrolão escancararam essa contradição: um discurso ético que convivia, na prática, com esquemas de financiamento ilegal, desvios de recursos públicos e relações promíscuas com grandes empreiteiras. Mesmo quando condenações foram posteriormente anuladas por razões processuais, os fatos materiais jamais foram contestados.
Houve também relativização recorrente de desvios cometidos por aliados, frequentemente tratados como “erros pontuais”, “excessos individuais” ou frutos de perseguição política, enquanto práticas idênticas, quando atribuídas a adversários, eram corretamente denunciadas como corrupção sistêmica. Esse duplo padrão corroeu a autoridade moral que a esquerda reivindicava para si.
No campo religioso, o erro foi igualmente grave. Ao reduzir o cristianismo a um fenômeno essencialmente conservador ou reacionário, a esquerda institucional abandonou a tradição cristã progressista latino-americana, historicamente representada pela Teologia da Libertação, por setores da CNBB, e por figuras como Dom Hélder Câmara, Dom Pedro Casaldáliga e Frei Betto.
Ao abdicar desse diálogo e tratar a fé apenas como problema ou massa eleitoral hostil, a esquerda deixou o terreno livre para que setores da direita religiosa — especialmente ligados ao fundamentalismo neopentecostal e à chamada bancada evangélica — passassem a falar em nome do cristianismo no espaço público, associando-o a uma agenda autoritária, moralista e excludente.
A direita brasileira: ruído, ressentimento e brutalidade
A direita brasileira, especialmente a partir da segunda metade da década passada, não apenas se radicalizou: empobreceu intelectualmente. O debate foi progressivamente substituído por performance caricata. Argumentos deram lugar a slogans. A complexidade passou a ser tratada como ameaça. A ignorância deixou de ser constrangimento e passou a funcionar como identidade política. Nesse ambiente, a desinformação não surge como desvio ocasional, mas como estratégia deliberada de mobilização.
Esse processo não é percepção subjetiva. Pesquisas do Pew Research Center mostram que, entre 2018 e 2022, o Brasil figurou de forma recorrente entre os países com maior grau de polarização afetiva e disseminação de conteúdos políticos falsos nas redes sociais, com forte concentração em ecossistemas digitais alinhados à extrema direita. O Reuters Institute, em seu Digital News Report de 2021 e 2022, apontou o Brasil como um dos países onde a confiança na informação jornalística foi mais corroída por campanhas sistemáticas de desinformação, muitas delas articuladas por lideranças políticas e influenciadores abertamente vinculados ao bolsonarismo.
A lógica que se consolidou foi a dos “fins que justificam os meios”. Notícias falsas sobre vacinas, urnas eletrônicas, fraudes eleitorais inexistentes, conspirações internacionais e tresloucadas ameaças comunistas passaram a circular como combustível emocional. Não se tratava de convencer pela razão, mas de ativar ressentimentos, produzir medo e manter a base em permanente estado de mobilização defensiva.
Esse ambiente discursivo pavimentou o caminho para a ruptura institucional. O ataque de 8 de janeiro de 2023 não foi um surto coletivo espontâneo, mas o desfecho previsível de anos de corrosão deliberada da confiança nas instituições democráticas. A invasão e depredação das sedes dos Três Poderes configuraram, segundo o ordenamento jurídico brasileiro, crimes graves contra o Estado Democrático de Direito, entre eles:
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Abolição violenta do Estado Democrático de Direito (art. 359-L do Código Penal), por tentar impedir ou restringir, mediante violência ou grave ameaça, o exercício dos poderes constitucionais;
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Tentativa de golpe de Estado (art. 359-M do Código Penal), por buscar depor, por meio violento, o governo legitimamente constituído;
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Associação criminosa (art. 288 do Código Penal), pela organização estável para a prática de crimes;
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Dano qualificado ao patrimônio público (art. 163, parágrafo único), pela destruição deliberada de bens da União;
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além de crimes previstos na Lei de Segurança Nacional então revogada, cujos tipos foram incorporados ao novo capítulo do Código Penal sobre crimes contra o Estado Democrático de Direito.
As investigações conduzidas pelo Supremo Tribunal Federal e pela Polícia Federal demonstraram que os atos não ocorreram no vácuo: houve financiamento, logística, incentivo político e produção contínua de narrativas golpistas antes e depois das eleições de 2022. A retórica da extrema direita, ao tratar adversários como inimigos e instituições como obstáculos ilegítimos, dissolveu qualquer compromisso real com as regras do jogo democrático.
Nesse sentido, a direita brasileira contemporânea não fracassou apenas como projeto político, mas também como cultura democrática. Ao transformar o debate público em arena de hostilidade permanente, substituiu o dissenso legítimo pela lógica da destruição simbólica e, por fim, pela violência explícita. O resultado não foi renovação política, mas regressão institucional, isolamento internacional e descrédito interno.
Não se trata aqui de divergência ideológica, mas de responsabilidade histórica. A política brasileira já conheceu uma direita capaz de disputar poder sem romper as regras do jogo, de fazer oposição sem sabotar instituições e de defender convicções sem recorrer à mentira ou à violência simbólica. Figuras como Ulysses Guimarães e Pedro Simon, embora identificadas com campos distintos do espectro político, eram respeitadas inclusive por adversários ideológicos e pelo próprio Centrão — não por concessões oportunistas, mas por coerência, civilidade e compromisso inequívoco com a democracia.
Eram respeitados porque entendiam que a política não é guerra cultural permanente, mas construção institucional; porque reconheciam limites, aceitavam derrotas eleitorais e tratavam a Constituição não como obstáculo, mas como pacto civilizatório. Ulysses, ao chamar a Constituição de 1988 de “Constituição Cidadã”, não fazia retórica vazia: afirmava que nenhum projeto político é legítimo se atropela direitos, minorias e regras comuns. Pedro Simon, por sua vez, construiu sua trajetória com base na moderação, na ética pública e na recusa sistemática de atalhos espúrios, mesmo quando isso custava capital político.
Quando a política abandona esse terreno da razão, da institucionalidade e do respeito mútuo, e passa a flertar abertamente com o colapso das regras democráticas, ela deixa de ser alternativa legítima e se transforma em ameaça concreta. O problema da direita brasileira contemporânea não é ser direita, mas ter rompido com sua própria tradição democrática, trocando o debate por ressentimento, a razão por ruído e o compromisso institucional pela aposta no caos.
O Centrão: a ideologia do nada
Se a esquerda relativiza e a direita brutaliza, o Centrão opera. Não governa ideias, não defende projetos e não se constrange com contradições. Sua lógica não é programática, mas transacional. Não há ali visão de país, compromisso ideológico ou horizonte de longo prazo — apenas sobrevivência política imediata, garantida por meio de barganha permanente.
O cientista político Fernando Limongi, ao analisar o presidencialismo de coalizão brasileiro, descreve esse bloco como um mercado contínuo de apoio parlamentar, no qual votos são trocados por cargos, verbas, controle de estatais e proteção política. O Centrão não se move por convicção, mas por conveniência (própria, que fique claro…). Apoia qualquer governo — de esquerda, de direita ou híbrido — desde que o preço seja pago.
Esse comportamento não é episódico, mas estrutural. Estudos do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP) e pesquisas da Fundação Getúlio Vargas mostram que partidos associados ao Centrão mantêm padrão constante de apoio a governos sucessivos, independentemente de plataforma, sempre ocupando ministérios estratégicos e áreas de alto orçamento. A coerência não é exigida; a adaptabilidade é virtude.
O efeito desse arranjo é profundamente corrosivo. Reformas estruturais são esvaziadas, agendas públicas são capturadas e a lógica do interesse coletivo é substituída pela lógica do toma-lá-dá-cá. A política deixa de ser instrumento de mediação social e passa a funcionar como máquina de autopreservação. O custo não aparece imediatamente nas manchetes, mas se acumula na forma de paralisia institucional, descrédito popular e cinismo generalizado.
O Centrão não é um desvio da democracia brasileira, mas sim um de seus parasitas mais longevos. E sobrevive justamente porque se oferece, com igual disposição, a qualquer campo que esteja no poder.
Todos contra o país
O quadro geral é desolador porque não é unilateral. A esquerda erodiu sua autoridade moral ao relativizar práticas que dizia combater. A direita sabotou a institucionalidade ao flertar com a ruptura democrática e transformar a mentira em método. O Centrão, por sua vez, esvaziou qualquer noção de projeto público ao reduzir a política a um balcão de negócios.
O resultado é um sistema em que ninguém governa para o país, mas todos governam contra ele. Enquanto os campos políticos disputam símbolos, cargos, narrativas e inimigos imaginários, problemas concretos — desigualdade estrutural, educação precária, insegurança, colapso ambiental, degradação institucional — seguem sem enfrentamento sério.
Pesquisas do Latinobarómetro mostram que o Brasil figura, há anos, entre os países com menor confiança nas instituições políticas da América Latina. Dados do Datafolha indicam que a maioria da população não se sente representada nem por partidos nem por lideranças políticas. Não se trata de apatia natural, mas de fadiga democrática.
Talvez seja hora de abandonar a fantasia reconfortante de que existe um campo moralmente superior dentro da política. Acreditem: não existe. Nenhum desses grupos pode reivindicar inocência histórica. Cada um, à sua maneira, contribuiu para o empobrecimento do debate público, o desgaste das instituições e a corrosão da confiança social.
Se essa constatação incomoda a direita, a esquerda e o centro ao mesmo tempo, tanto melhor. A verdade, quando é honesta, raramente escolhe lado — e quase sempre desagrada a todos.
Por Otaviano Lacet*
*Jornalista, Escritor, Editor e Músico sofrível, com pós-graduações em Jornalismo Digital; Análise do Discurso Midiático; Produção Textual; MBA em Comunicação e Semiótica; Docência no Ensino Superior.





































































