A Europa alimentou o monstro. Agora não consegue domá-lo.
A “ordem mundial” que a Europa costuma exibir em discursos sempre funcionou como cláusula condicional: vale enquanto protege seus interesses; vira “complexa” quando exige enfrentamento. Durante décadas, o continente assistiu com indignação seletiva ao intervencionismo americano: invasões, sanções com impacto social devastador, coerção econômica, chantagens diplomáticas, golpes de estado conduzidos sob o verniz de “missão civilizatória”. O horror estava distante e, portanto, administrável. Chamou-se isso de “geopolítica”.
O problema é que monstros não ficam confinados ao quintal alheio. Quando nutridos por omissão, normalização e conveniência hipócrita, passam a exigir novos territórios.
Agora, com Donald Trump escalando ameaças contra aliados e insinuando a tomada da Groenlândia sob pretextos “estratégicos” contestados por líderes europeus, o continente prova algo que latino-americanos conhecem há muito tempo: impérios não têm amigos, colecionam utilidades. A Europa colhe o resultado de sua passividade e finalmente começa a chamar o abuso pelo nome que sempre evitou pronunciar.
Steinmeier verbalizou o pânico europeu… e entregou a contradição
A Europa começou a se mexer não por virtude, mas por medo. E esse pânico institucional ganhou rosto na fala do presidente alemão Frank-Walter Steinmeier, repercutida pela imprensa mundial: ele acusou os Estados Unidos de estarem destruindo a ordem mundial construída no pós-guerra e alertou que o planeta pode virar um “covil de ladrões”, em que os inescrupulosos tomam o que querem e países inteiros passam a ser tratados como propriedade de potências que já nem disfarçam o apetite.
Até aí, o diagnóstico é correto. O problema começa no passo seguinte.
Porque, no mesmo fôlego e com a força de uma confissão, Steinmeier soltou a frase que expõe a falência moral e a falta de noção europeia: segundo ele, “países como Brasil e Índia precisam ser convencidos a proteger a ordem mundial”. Parem o trem: a razão pulou pela janela e a cara de pau se tornou o maquinista.
Isso não é nota de rodapé: é o escândalo em estado puro, a prova do cinismo. A Europa quer jogar para Brasil e Índia o custo de conter os EUA, como se o Sul Global tivesse obrigação de proteger uma “ordem mundial” que sempre funcionou como jaula e nos tratou como cidadãos de segunda classe. Agora que o monstro rosnou para o lado europeu, querem que os antigos alvos virem “seguranças do condomínio”. É o atrevimento desaforado que sustenta a velha lógica de privatizar os lucros e socializar os prejuízos.
A declaração alemã lembra um rico que acorda assustado ao descobrir que existe miséria no mundo, mas só se alarma quando ela passa a rondar o próprio condomínio. Durante décadas, quando a América Latina foi sufocada por sanções, derrubada por operações clandestinas, “corrigida” por golpes amigos ou estrangulada por coerção econômica, a Europa raramente chamou isso pelo nome. Preferiu eufemismos: “contexto”, “complexidade”, “interesses estratégicos”. O senso de urgência só surgiu quando o método americano ameaçou se voltar contra aliados europeus.
E aqui entra a pergunta-chave, aquela que Steinmeier não faz e a Europa evita encarar: por que, exatamente, caberia a Brasil e Índia, duas ex-colônias exploradas e esfoladas até o osso por europeus, protegerem a própria Europa? Que obrigação histórica, política ou moral poderia recair sobre esses dois países para defenderem um sistema que jamais os tratou como iguais? Por que Brasil e Índia, que nunca foram amparados pela Europa quando sofreram ingerência, espoliação e sabotagem, deveriam agora agir como bombeiros de um incêndio que o próprio continente alimentou por décadas? Em bom “nordestinês”, a resposta é curta e cristalina: “esse bicho é cheio de leve essa, quem engole corda é cacimbão”.
Quando Steinmeier pede “convencimento” de Brasil e Índia, ele não pede solidariedade: tenta empurrar responsabilidades. E empurra justamente para países que foram colonizados, saqueados e violentados pelo mesmo eixo europeu que hoje posa de vítima tardia. O Brasil foi espoliado por metrópoles europeias; a Índia, submetida por séculos ao Império Britânico. E agora, depois de colonização, racismo estrutural e uma longa história de desprezo, esse mesmo bloco aparece exigindo que os antigos explorados defendam a casa dos antigos exploradores.
Isso não é apenas falta de noção: é a Europa revelando, em público, o que sempre foi a sua “ordem mundial”: hierárquica, seletiva e funcional, onde a dor dos outros vira ruído… e a dor europeia, crise civilizatória.
Tarifaço contra o Brasil: a chantagem que a Europa decidiu ignorar
A omissão europeia, aqui, não foi acaso, e sim decisão. Quando Washington resolveu usar comércio exterior como porrete político contra o Brasil, a Europa fez o que costuma fazer sempre que o alvo não está no seu círculo de autoproteção: silenciou completamente. Sem indignação proporcional, defesa enfática da soberania institucional brasileira ou denúncia clara de interferência externa. Porque, mais uma vez, o abuso parecia “administrável”. Parecia “lá”.
O caso brasileiro escancara o método. Não se tratou de ajuste técnico, nem de disputa comercial normal. O Brasil recebeu a tarifa mais alta do mundo nessa rodada: 50%, acima inclusive de países frequentemente descritos por Washington como inimigos. Faltaram proporcionalidade e coerência econômica: tratou-se de “punição exemplar” aplicada a um parceiro comercial que, historicamente, rendeu mais do que custou aos Estados Unidos.
E o que torna tudo ainda mais grave é que o instrumento foi tratado como ferramenta de coerção institucional, com foco no contexto político interno brasileiro. Em bom português: tarifa não como política comercial, mas como pressão. Economia como chantagem.
A Europa, que adora posar como guardiã de regras e do Estado de Direito, assistiu a tudo sem erguer a voz. O continente deveria ter aprendido há muito tempo que omissão não é neutralidade: é cumplicidade por conveniência. Ao comprar a lógica do “antes eles do que nós”, alimentou o monstro. Cada abuso tolerado fora do seu quintal serviu de treino para o seguinte. Agora o treino virou estreia… no palco europeu.
Venezuela: quando o continente fecha os olhos, a sanção vira sentença coletiva
O laboratório venezuelano é um retrato do silêncio europeu em sua forma mais cruel. Enquanto sanções se acumulavam e a vida cotidiana virava escassez, o continente escolheu a postura confortável do espectador: inquietação protocolar, mas sem confronto real. Maduro era corrupto, autoritário e fraudador, sim. Só que a tragédia venezuelana não cabe na caricatura do ditador isolado em Caracas. Ela inclui uma política externa desenhada para asfixiar o país.
Sanções financeiras não são abstração. Viram falta de medicamento, peça hospitalar retida, importação travada, crédito bloqueado, energia deteriorada, comida cara, pessoas morrendo. Quando se interrompem fluxos econômicos essenciais sob o argumento de “punir o regime”, quem paga primeiro não é o palácio: é o povo.
A Europa, diante desse quadro, limitou-se a notas frias. O silêncio não foi ingenuidade e sim cálculo covarde: manter Washington confortável, mesmo que a população venezuelana pagasse com o corpo.
Groenlândia: o monstro atravessa a cerca
A Groenlândia escancarou o que a Europa tentou fingir que não existia: o método americano nunca foi exceção e sim rotina. A diferença é que, desta vez, o alvo não é um país latino-americano tratado como “zona de influência”, nem uma nação do Oriente Médio convenientemente convertida em “ameaça”. Agora, o dedo aponta para um território ligado ao Reino da Dinamarca, dentro da arquitetura política e militar do Ocidente. Em termos simples: o abuso atravessou a fronteira do tolerável.
Trump voltou a defender, sem disfarces, a ideia de “controlar” a Groenlândia. E, como sempre, a embalagem clichê veio pronta: segurança nacional, “ameaça” russa e chinesa, proteção estratégica. A velha ladainha de sempre, reciclada com novo mapa. A única surpresa europeia, depois de décadas assistindo em silêncio ao mesmo enredo fajuto aplicado contra terceiros, foi descobrir que o roteiro também podia ser usado contra ela.
O pano de fundo é ainda mais explosivo porque a Groenlândia encosta no nervo exposto da OTAN. Se um membro é atacado, toda a aliança sangra. Não é apenas questão territorial: é a quebra do pacto que sustentou a arquitetura atlântica desde a Segunda Guerra. E foi por isso que a reação europeia saiu do modo “nota diplomática” e entrou no de “alarme de incêndio”.
A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, foi cristalina em entrevista à TV2 e repercutida internacionalmente: “se os EUA atacarem militarmente um aliado, então tudo acaba, incluindo a própria OTAN”. Essa frase é uma guilhotina. Ela não carrega só indignação, mas também a confissão de que, quando o predador é o próprio guardião do portão, não existe mais segurança coletiva.
Do lado groenlandês, a reação também foi direta: “a ilha não é mercadoria para leilão geopolítico, nem ficha de cassino para ambição imperial. A Groenlândia tem povo, eleições, identidade e direito de autodeterminação”. A Europa, acostumada a tratar intervenções como coisas “distantes”, só compreendeu o tamanho do monstro quando ele ganhou nome, sotaque e endereço europeu. Em outras palavras: o continente não está assustado por ter descoberto a brutalidade, mas sim por agora entender que ela também pode bater na sua porta.
O interesse real: recursos, rotas e o “pedágio” do futuro
A Groenlândia não é objeto de cobiça por poesia patriótica. A motivação é material: minerais críticos essenciais para tecnologia e defesa (terras raras, grafite, níquel), além das rotas do Ártico, que o degelo vem tornando progressivamente navegáveis. Isso reduz distâncias, altera cadeias logísticas e reorganiza poder econômico no planeta.
Controlar o corredor ártico significa controlar influência, restringir, condicionar e cobrar. Em linguagem simples: transformar geografia em instrumento de cobrança, um pedágio invisível sobre o comércio do futuro.
A Europa fingiu por muito tempo que o intervencionismo americano tinha motivação ética. A Groenlândia dissolve essa fantasia: quando o alvo é estratégico, o discurso se adapta. Segurança aparece como embalagem. O conteúdo é domínio econômico.
Conclusão: quem alimenta o predador não escolhe onde ele morde
Este artigo não é defesa de ditadores. Maduro era corrupto e autoritário, e sua queda não merece luto. O que merece denúncia é o truque que vem no pacote: vender “libertação” enquanto se normaliza o direito do mais forte de invadir, chantagear e administrar riquezas alheias como espólio.
A Europa tolerou esse método por décadas. Fechou os olhos quando ele esmagou o Sul Global, adotou eufemismos para o saque e fingiu neutralidade diante do abuso. Quando tarifas viraram porrete contra o Brasil, calou. Quando sanções condenaram populações inteiras à escassez, relativizou. A regra sempre foi a mesma: indignação seletiva, coragem terceirizada.
Agora, com a Groenlândia na mira, veio o choque: o predador não respeita o clube que o alimentou. O horror não é novo; só mudou o endereço. E quem passou anos servindo o banquete não tem o direito de se espantar quando o monstro, saciado e confiante, decide morder também dentro de casa.
Por Otaviano Lacet*




































































