A chegada de patinetes em Natal na última semana reacendeu o debate sobre mobilidade urbana na capital potiguar e o uso de novos modais ante os carros, motos e transporte público para os natalenses. Mesmo em fase de testes, o uso desenfreado, inadequado e até com relatos de acidentes e “roubos” dos equipamentos, com natalenses levando os patinetes para casa e, por sinal, os colocando em redes sociais com o intuito de viralizar.
“O problema está na forma como as pessoas estão usando. Isso acaba sendo desestimulante para quem planeja o sistema de transporte de uma cidade e quem tenta fazer algo de diferente”, desabafa Isabel Magalhães, especialista em Mobilidade Urbana e mestre e doutora em Transporte e Gestão das Infraestruturas Urbanas. Aliado a isso, um gargalo histórico da cidade de Natal voltou à tona com a chegada dos patinetes: a estrutura cicloviária da cidade, que ainda carece de melhorias e ampliação para os usuários.
O tema voltou à discussão justamente pela recomendação do uso desses dispositivos serem nessas faixas dedicadas para os ciclistas. No entanto, a rede ainda não é suficiente, segundo especialistas e interlocutores do movimento bicicletário em Natal. A Secretaria de Mobilidade Urbana de Natal (STTU) reconhece as carências e aponta que há iniciativas para ampliar em mais 150 km de estrutura cicloviária nos próximos anos.
Atualmente, Natal possui cerca de 113 km de ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas espalhadas em toda a cidade. Há casos de ciclistas precisando dividir as faixas com ônibus, como no caso da Avenida Prudente de Morais e Hermes da Fonseca, mas há também faixas exclusivas, como na Avenida São José, Jaguarari, Rio Branco, entre outras. Há ainda estruturas mais completas, como no caso do anel viário da UFRN.
“O que não temos é uma rede cicloviária estruturada. Nós temos e cada vez mais a prefeitura tem implementado, vemos novas ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas, mas não temos ela de maneira integrada. O que isso quer dizer é que não consigo me deslocar continuamente de bicicleta em uma infraestrutura cicloviária. Acaba-se precisando recorrer a uma calçada, uma via. E nisso coloca-se uma nova opção modal para disputar esse espaço que ainda não está 100% configurado. Nisso acaba limitando o uso”, reflete a professora Isabel Magalhães, que é professora adjunta do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da UFRN.
Na avaliação da professora Isabel Magalhães, a opção modal é uma iniciativa interessante, principalmente por ser sustentável, mas é preciso que a população “leve a sério”. Ela aponta ainda que o anúncio do serviço foi de “surpresa” para a população, o que pode ter atrapalhado o início do serviço.
“Não temos uma rede cicloviária consagrada em Natal. Temos várias vias, mas há quebras dessa infraestrutura. Acaba sendo mais um modo de transporte disputando espaços em vias que, querendo ou não, pode aumentar a quantidade de riscos e acidentes. Acho que é uma excelente alternativa, mas a população precisa ser preparada de alguma forma para utilizar, e por parte do Poder Público, com campanhas educativas, conscientização, preparar motoristas e usuários dos patinetes”, acrescenta, apontando ainda que a integração com o transporte público é uma alternativa também a ser avaliada.
Para o presidente da Associação dos Ciclistas do RN (Acirn), Fabiano Silva, a ideia foi vista inicialmente com bons olhos pela associação, porém, relata que não houve diálogo ou comunicação com os ciclistas da capital.
“Não temos estruturas cicloviárias na capital, apesar dos pequeninos avanços nos últimos anos. A vinda desses equipamentos escancarou a problemática tantas vezes denunciadas por nós. Pra você ter uma ideia, nem as praias nobres da cidade têm ciclovias integradas e/ou calçadas acessíveis. Uma verdadeira calamidade”, reclama.
Para o arquiteto e urbanista Carlos Milhor, que desenvolve projetos de mobilidade urbana em Natal, uma das dificuldades do uso do patinete em Natal são as ruas esburacadas e a maioria das ruas nos bairros serem de paralelepípedos. Isso impede uma mobilidade fora das vias principais, que são asfaltadas.
“Como não temos calçadas adequadas nem para pedestres, o usuário do patinete tem que se deslocar pela rua. Nesse caso, ele se compara ao ciclista, pode usar a estrutura cicloviária com cautela e pode usar a via como um veículo. Agora, os motoristas têm que ficar atentos porque é mais um veículo pequeno na pista, e tem que ser respeitado na mesma escala do pedestre e do ciclista”, acrescenta Milhor.
Uso inadequado e acidentes marcam primeiros dias
Com uso implementado desde o último domingo (20) em alusão à Semana Nacional do Trânsito, a chegada dos patinetes em Natal virou o assunto da cidade durante toda a semana. Seja em grupos de WhatsApp, televisões ou programas de rádio: o tema foi de longe o mais debatido na capital potiguar. Isso porque nos primeiros dias de operação dos patinetes elétricos em Natal foram registrados casos de uso inadequado dos veículos e acidentes, o que gerou preocupações com a segurança no trânsito. São 600 equipamentos disponíveis em Natal.
Foram reportadas colisões entre o novo meio de transporte e moto, quedas de usuários e até mesmo condutores dos patinetes batendo em árvores. Um idoso de 81 anos foi atropelado na última quinta-feira (25) e recebeu mais de 18 pontos nos ferimentos.
A JET, empresa responsável pela implementação do serviço na capital potiguar, declarou que está investigando casos de vandalismo e mau uso. A companhia se comprometeu a apurar todos os incidentes, com o objetivo de recuperar os patinetes danificados e aplicar sanções, incluindo o banimento de usuários que não respeitarem as regras de uso estabelecidas.
De acordo com a STTU, após o período de testes, que deve durar 120 dias, o Executivo deve regulamentar o serviço e a ideia é usar a experiência dos patinetes para implementar a modalidade de bicicletas compartilhadas.
Sobre a primeira semana de testes, Jódia Melo disse que ainda é cedo para uma avaliação inicial, já que o serviço se encontra em fase experimental de 120 dias. “Nesse período, será possível observar como os usuários se adaptam ao novo modal e como se dá a convivência dos patinetes com os demais veículos e pedestres”, cita.
A secretária disse ainda que, entre os desafios para as próximas semanas, a prioridade é trabalhar a educação no trânsito. “Nesse sentido, uma das iniciativas em andamento é a Escola de Condução Segura, desenvolvida em parceria com a JET Patinetes, que orientará usuários sobre boas práticas de utilização e segurança”, finalizou.
Para utilizar o patinete, primeiro é preciso baixar o aplicativo indicado no veículo, escanear o QR Code no painel e fazer o cadastro. Após o desbloqueio, que custa R$ 1,99 durante a semana e R$ 2,99 aos fins de semana, o patinete fica disponível para uso. A tarifa por minuto de utilização varia de R$ 0,59 a R$ 0,89, e a empresa oferece pacotes mensais para quem utiliza os veículos com frequência.
STTU: ampliar conectividade é desafio
Segundo a secretária de Mobilidade Urbana de Natal, Jódia Melo, a perspectiva da pasta é ampliar a malha cicloviária de Natal em mais 150 km nos próximos anos, garantindo maior cobertura e conectividade para quem utiliza a bicicleta como meio de transporte, lazer ou esporte.

Jódia Melo, da STTU, diz que plano é implantar mais 150 km de ciclovias nos próximos anos| Foto: Adriano Abreu
“A Secretaria de Mobilidade Urbana de Natal reconhece que a rede cicloviária da cidade ainda carece de maior integração e continuidade. Essa situação decorre de fatores técnicos e estruturais. Um exemplo é o trecho da Avenida Felizardo Moura, que possui ciclovia, mas cuja continuidade pela Ponte de Igapó e Avenida Tomaz Landim enfrenta desafios: trata-se de uma via federal, com limitações físicas e legais, que demandariam desapropriações ou a destinação de uma faixa de rolamento exclusiva para bicicletas — medida que impactaria o fluxo de veículos e poderia gerar congestionamentos”, explica.
A gestora disse ainda que o planejamento e a implantação de soluções voltadas para a mobilidade ativa e pluralidade de modais nas vias estaduais e federais não são de competência da Mobilidade Urbana de Natal, o que dificulta a integração entre as ciclovias em sistemas viários federais e estaduais que cortam a cidade. O ideal seria que as mais diversas esferas planejassem ações em conjunto.
“Contudo, nos próximos anos, a Secretaria trabalha para avançar em soluções viáveis de integração, priorizando conexões possíveis dentro da malha urbana e buscando alternativas de projetos que respeitem as características de cada via, de modo a reduzir as descontinuidades”, acrescentou.
O que pode e o que não pode no uso de patinetes em Natal
Pode
Aluguel e uso por maiores de 18 anos.
Uso individual (apenas uma pessoa por veículo).
Utilização em ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas.
Na ausência dessas estruturas, circulação em ruas com limite de até 40 km/h, no sentido da via e junto à borda direita (quando permitido pela autoridade local).
Circulação em áreas de pedestres, respeitando o limite de 6 km/h.
Descer do patinete e atravessar pela faixa de pedestres empurrando o veículo.
Estacionar apenas nas estações indicadas no aplicativo da JET.
Uso de capacete (opcional, mas fortemente recomendado).
Não pode
Uso por menores de 18 anos.
Levar duas pessoas no mesmo patinete.
Conduzir sob efeito de álcool ou outras substâncias psicoativas.
Ultrapassar o limite de 120 quilos.
Usar o patinete para transporte de cargas ou serviços de entrega.
Circular em vias acima de 40 km/h.
Estacionar em calçadas, garagens, rampas de acessibilidade ou faixas de pedestres.
Imagens: Adriano Abreu
Fonte: Tribuna do Norte










































































